CONTROLE DE INFECÇÃO RELACIONADA À ASSISTÊNCIA À SAÚDE

Por Agenor Gomes Neto - junho 03, 2018

Dentro dos hospitais ou unidades prestadoras de serviços à saúde, há um grande acúmulo de pessoas doentes onde pode-se notar algumas desvantagens para alguns destes, como por exemplo, a transmissão de infecção de uma pessoa para outra.
As infecções hospitalares (IH) ou também conhecida como infecções nosocomiais, é por definição, qualquer infecção adquirida enquanto no ambiente hospitalar.
O Ministério da Saúde define IH como aquela adquirida após a admissão do paciente e cuja manifestação ocorreu durante a internação ou após a alta, podendo ser relacionada com a internação ou procedimentos hospitalares.
Atualmente o termo Infecção Hospitalar vem sendo substituído por Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), e segundo o MS, essa mudança ocorre por:
Abranger não só a infecção adquirida no hospital, mas também aquela relacionada a procedimentos feitos em ambulatórios, durante cuidados domiciliares e à infecção ocupacional adquirida por profissionais de saúde.
As IRAS são consideradas como um problema de escala mundial, aumentando a taxa de morbidade e mortalidade do paciente, pois a infeção adquirida durante a assistência associada à patologia já existente, traz várias complicações no seu quadro clínico e por fim, tem como consequência, o aumento no tempo de internação. Por outro lado, todos esses fatores desencadeiam também um aumento no custo de tratamento, trazendo diversos prejuízos para a instituição fornecedora do serviço, para o próprio paciente e para a comunidade.

As IRAS podem ser adquiridas a partir de:

  • Uma fonte exógena: de outro paciente, infecção cruzada ou do meio ambiente;
  • Uma infecção endógena: de outro local do próprio paciente - auto-infecção.

Desta forma vale ressaltar que quando há uma infecção já 'incubada' em um paciente e este é admitido a uma unidade de saúde, não pode-se considerar uma IRAS, já que a infecção ocorreu antes mesmo do paciente dar a entrada. No entanto, quando as infecções são adquiridas na comunidade e levadas ao ambiente de terapia, estas podem se tornar IRAS para outros pacientes e para a equipe cuidadora.

Para que o paciente venha a adquirir a infecção, ele dependerá de várias circunstâncias, tais como, (1) as fontes e vias de disseminação do agente etiológico - vírus, fungos e bactérias - que podem ocorrer através de vetores, fômites, da equipe hospitalar, ou das condições do próprio paciente e entre outros; (2) e os fatores do hospedeiro como a doença de base, a resposta ao tipo de tratamento e a procedimentos invasivos, onde estes afetam o sistema imunológico deixando-o vulnerável à infecções. 

Desta forma, visando a prevenção, existem três estratégias para o controle das IRAS:
- Exclusão das fontes de infecção no ambiente hospitalar;
- Interrupção da transmissão da fonte para o hospedeiro suscetível;
- Potencialização da capacidade do hospedeiro resistir à infecção.

Tendo em vista as consequências das IRAS tanto para o paciente quanto para a comunidade, foram implementadas leis e portarias pelo Ministério da Saúde (MS) para o controle das infecções.
A década de 60 foi caracterizada pelo início de uma nova era no Controle das Infecções Hospitalares (CIH). Foi em 1963 que surgiu no Hospital Ernesto Dornelles, em Porto Alegre- RS, a primeira Comissão de Controle de Infecções Hospitalares (CCIH), sob recomendação da American Hospital Association, em 1958.

Já em 1976, o decreto do MS n° 77.052 de 19/01/1976, em seu 2° artigo, item IV, determinou que:
Nenhuma instituição hospitalar pode funcionar no plano administrativo se não dispuser de meios de proteção capazes de evitar efeitos nocivos à saúde dos agentes, pacientes e circunstantes. A fiscalização é responsabilidade dos órgãos estaduais - que devem avaliar as condições de exercício das profissões e ocupações técnicas e auxiliares diretamente relacionadas com a saúde.

Em 1983 a Portaria nº 196 do MS foi publicada determinando a obrigatoriedade da existência de CCIH dentro dos hospitais.

Mais tarde em 1998, foi publicada a portaria nº 2616/MS que diz respeito a Assessoria do órgão deliberativo da Instituição e execução das ações de CIH  onde definem:
As diretrizes e normas para prevenção e controle das IH presentes nos anexos I, II, III, IV, V; O programa de controle de IH.
Mais recente também foi publicada outra portaria de nº 385, de 04/06/2003, o GIPEA - Gerência de Investigação e Prevenção das Infecções e dos Eventos Adversos, que trata do gerenciamento da investigação e prevenção da IH e outros adventos.

As IRAS trazem vários prejuízos para o próprio paciente infectado, bem como para a população. As infeções podem agravar o estado clínico do hospedeiro e o tratamento se tornar uma meta difícil para a equipe cuidadora. As infecções por microrganismos multirresistentes são as razões pelos quais o CCIH e a equipe multidisciplinar dentro dos hospitais, principalmente nas unidade de terapia intensiva, se preocupam com a diminuição das opções terapêuticas antimicrobianas e o retardo no tratamento do paciente.

Agora, tratando das infecções que podem acontecer durante a assistência a saúde, e como já mencionado anteriormente, dentre os vários fatores, o estado do sistema imunológico do paciente está diretamente envolvido. As infecções prevalecem em pacientes imunocomprometidos, e àqueles submetidos a procedimentos invasivos. Os sítios anatômicos mais acometidos são o trato urinário, o sistema respiratório, os sítios cirúrgicos e a corrente sanguínea. Já os microrganismos mais prevalentes que apresentam algum tipo de mecanismo de resistência são: Staphylococcus sp. Coagulase-negativa, Staphylococcus aureus, Acinetobacter baumanni, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella sp., Stenotrophomonas maltrophilia, Serratia marcenses e Enterobacter cloacae.

Estes microrganismos podem desenvolver resistências extrínsecas à diversos antimicrobianos das classes dos glicopeptídeos, aos aminoglicosídeos, aos beta-lactâmicos em geral, às sulfonamidas e as quinolonas. Alguns dos microrganismos podem apresentar mecanismos específicos  de resistências como a mudança do sítio alvo de ligação do antimicrobiano,  como exemplo temos o Staphylococcus aureus resistente a meticilina (MRSA) e o Enterococcus spp. resistente a vancomicina (VRE).  No entanto, outros microrganismos podem produzir enzimas inibidoras que destroem as drogas, a exemplo temos o grupo do bacilos Gram-negativos, que podem produzir β-lactamases cromossômicas induzíveis (AmpC); β-lactamases plasmidiais de espectro ampliado (ESBL); β-lactamases capazes de degradar os carbapenens (KPC).

Por isso, dentre as várias estratégias para controlar as infecções ocorridas dentro de uma unidade prestadora de serviços à saúde, a cultura de vigilância é umas ferramentas utilizadas para a detecção de microrganismos multirresistentes. 

A Cultura de Vigilância é um exame microbiológico realizado geralmente dentro do ambiente hospitalar conduzido pelo CCIH da instituição, com o objetivo de pesquisar mecanismos de resistência nos microrganismos colonizantes isolados na cultura. Os materiais a serem obtidos para a análise são os swabs perianal, nasal e axilar.

Nestes sítios podem ser encontradas linhagens bacterianas que não apresentam algum tipo de mecanismo, e estes somente podem ser colonizantes ou participar da microbiota normal do hospedeiro. No entanto, nesses sítios podem ser isoladas cepas apresentando mecanismos de resistência.

Segundo Oliveira (2008), a cultura microbiológica de vigilância dever ser realizada num período semanal para a verificação de colonização por estes microrganismos dentro dos leitos onde se encontram os pacientes internados. 

As medidas a serem tomadas de modo geral, é o isolamento do paciente, a preconização da importância das lavagens das mãos, a descontaminação das áreas onde o paciente de encontra-se e os materiais que o entraram em contato e por fim, a utilização adequada dos Equipamentos de Proteção Individual. Todas as estratégias devem seguir os protocolos de cada instituição conforme recomenda a sua CCIH, para que não haja a propagação destas linhagens resistentes aos antimicrobianos.  

À vista disso, justifica-se a importância da cultura de vigilância no controle da disseminação dos microrganismos resistentes e desta forma, diminuindo a probabilidade de infeções por estes microrganismos. 




Referêcnias/fonte
OLIVEIRA, A.C; Silva, R.S. Desafios do cuidar em saúde frente à resistência bacteriana: uma revisão. Revista Eletrônica de Enfermagem [Internet]. v.10, n. 1, p. 189-197. 2008.
FURTADO, G .H. C. et al. Incidência de Enterococcus resistente à vancomicina em hospital universitário no Brasil. Rev. Saúde Pública. v. 39, n. 3, p. 41-46, 2005.
ANDRADE, D.; LEOPOLDO, V. C.; HAAS, V. J. Ocorrência de Bactérias Multiresistentes em um Centro de Terapia Intensiva de Hospital Brasileiro de Emergências. Revista Brasileira Terapia Intensiva. v. 18, n. 1. 2006.
BÔAS, P. J. F. V.; RUIZ, T. Ocorrência de infecção hospitalar em idosos internados em hospital universitário. Rev. Saúde Pública. v. 38, n. 3, p. 372-378, 2004.
Gerência de Investigação e Prevenção de Infecção e Eventos Adversos. GIPEA/ GGTES/ANVISA.
Imagem da capa: institutocienciaearte.com.br

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1 comentários

  1. Boa tarde.
    A questão da vigilância em torno das IRAS é de suma importância. A prevenção deve ser estabelecida desde a Educação Continuada, trabalhada na observação de validação e inviolabilidade de artigos esterilizados destinados ao tratamento do paciente, que pela natureza da sua internação estará com sua capacidade imunológica reduzida frente às infecções e aos procedimentos invasivos. Estou me formando em biomedicina e tenho um grande interesse na atuação do profissional biomédico na CCIH. Rio de Janeiro

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